nossos sentimentos amorosos são realmente originais, ou são frutos de um certo senso comum que predomina numa determinada época, moldados por hábitos sociais e/ou de consumo, que acabam por estabelecer certos padrões de anseios e expectativas para nossas relações afetivas & sexuais?
explico-me: outro dia, ao ler uma suposta carta de pós-separação no blogue redatoras de merda, assustei-me com a quantidade de semelhanças com as queixas e insatisfações já ditas e ouvidas por mim, ou ainda, escutadas de terceiros sobre seus próprios relacionamentos. tudo me pareceu tão previsível que passei a me questionar se, no que diz respeito ao amor, não estamos todos apenas repetindo um grande script social, sem consciência real dos sentimentos.
talvez seja esse um dos motivos do grande número de separações, divórcios, e trocas de casais. as pessoas querem encaixar suas vidas em modelos pré-determinados, tirados sabe-se lá de onde (da literatura? das novelas? das religiões? dos comerciais de bombons e de celulares?), sem respeitar as caracerísticas dos próprios desejos e ansiedades, e as de seus parceiros.
o resultado só pode ser frustração, tristeza e angústia para “acertar”. e aí pergunto com sinceridade, sem uma gota de ironia: acertar em quê? em quem? acertar é encontrar um parceiro para o resto da vida é casar, ter filhos, aluguel e contas a pagar? ou é sair por aí pegando geral, satisfazendo a ilusão de que vamos conseguir dormir com todas as pessoas interessantes que aparecem? só se acerta assim? quem disse que isso é o certo? é certo para quem?
as perguntas são muitas e redundantes, mas acredito que apenas com coragem para se questionar, e de várias maneiras diferentes, seja possível talvez alcançar alguma resposta. e desconfio que não haja uma resposta apenas, e que nenhuma seja definitiva para todos os casos.
volto a repetir, talvez o que devamos fazer é sondar nossos porões, onde mora a criança faminta que apenas deseja, retirarmos todo o entulho social da correção e das boas maneiras, e deixarmos que ela diga suas vontades. quem sabe a escutando de vez em quando não passamos a melhorar nossas escolhas, ficando então um pouco menos insatisfeitos?