sobre homens e putas (ou “ai de mim, copacabana”)

dias atrás encontrei com um amigo que não via há 16 anos. posso precisar a data porque uma das últimas vezes que nos vimos foi durante o chá de bebê de sua filha, hoje com a referida idade.

o amigo ficou todo animado quando soube que moro próximo da prado júnior, umas das ruas de má-fama da cidade, por conta das putas travestis e boates de strip tease que na região medram – mas não medram, metem, isso sim, as caras, os peitos e o que mais o que freguês pagar.

enfim, ele começou a lembrar dos tempos em que freqüentava o cervantes, o restaurante que faz melhor sanduíche do rio, cujo chope é capaz de emocionar até as pedras do calçamento. alta madrugada, ele costumava avisar aos amigos que ia ao hortifruti. quando os amigos estranhavam, pois o mercado já estaria fechado há muitas horas, ele malandramente explicava: “é hora de fazer a feira”.

rimos juntos da piada, embora eu tenha matutado que “frutas”, “verduras” e “leguminosas” se prestam mais a trocadilhos do gênero masculino. enfim, como não o vejo há um tempão, não sei se suas preferências se modificaram, e de qualquer maneira, não tenho nada que ver com os gostos alheios. afinal, como dizia aldir blanc, “a proposta é cada um come o que gosta”.

apesar de todos meus conhecidos homens ficarem de olhos vidrados, com um fio de baba pendente do canto da boca quando conto onde moro, nunca me envolvi com as moças do entorno. muito menos comercialmente.

não sei se por pudicícia, anticapitalismo, ou pelo gosto por certas práticas condenáveis pela igreja católica – e que me disseram que não se faz com profissionais –, o fato é que nunca nem nada. pelo menos que eu saiba; e quem disser que sabe com certeza que atire a primeira calcinha.

quando procurava lugar para morar, a histórica aura local de maldição contribuiu para a escolha. óbvio que a qualidade do apartamento (para o meu orçamento) foi fundamental, mas a possibilidade de morar ao lado do famigerado beco da fome também era extremamente sedutora.

o mais fascinante da região é ver como as várias tribos convivem em harmonia. velhinhas que saem à rua de camisola para comprar os matutinos dividem a calçada com putas bebendo em fim de expediente, trombadinhas cheirando cola, policiais achacando cáftens, gringos bêbados discutindo com taxistas, pitboys lanchando antes de fazer naninha, e até ciclistas madrugadores como eu.

e todo mundo sabe seus limites, e todo mundo respeita o território alheio, como um simba-safári urbano. de vez em quando tem um tumulto, mas vê-se logo que é gente de fora, que não sacou a dinâmica do lugar e está achando que vai enrolar alguém por ali.

mas nessa parte de copa otário nasceu morto, e quem não sabe brincar, não desce pro play. rapidamente os locais dão uma desempenada no tom dos forasteiros, na paz, ou se necessário, com dose maior de assertividade.

eu, que não sou bobo nem nada, passo invisível, de olhos e ouvidos atentos pelo folclore local. e subo pra casa à espera da lua cheia, que especialmente nas noites de verão, invade meu quarto de madrugada para iluminar meus sonhos.

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1 comentário

Arquivado em ego, só dói quando eu rio de janeiro

Uma resposta para “sobre homens e putas (ou “ai de mim, copacabana”)

  1. Olá, tudo bem?
    Estou trabalhando na divulgação do musical Avenida Q. Selecionei alguns blogs para confeir o espetáculo grátis. Topas?
    Se topar, me mande um email para que eu possa te dar mais detalhes.
    flavia@franceschini.com.br
    Valeu!
    bjos

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